Energia determina competitividade da tinturaria portuguesa
A factura energética tornou-se o factor crítico de sobrevivência para a indústria têxtil e do vestuário (ITV) europeia — e portuguesa. Mário Jorge Machado, presidente executivo da Adalberto Textile Solutions, foi categórico num webinar organizado pela EU Textiles Ecosystem Platform: «A Europa tem de encontrar formas de reduzir o custo da electricidade dos actuais 150 a 200 euros por MWh para níveis entre 35 e 45 euros por MWh para a indústria. Este é o grande desafio que temos de resolver com a Comissão Europeia para garantir energia competitiva para o sector».
A declaração, proferida no evento que contou também com a Euratex e a Humana, reflecte a realidade de uma empresa que opera três turnos contínuos em acabamento, tinturaria e estampagem — processos particularmente intensivos em energia térmica e eléctrica. Com cerca de 300 trabalhadores, a Adalberto consome quantidades elevadas de gás natural para aquecer água nos processos de tingimento e electricidade para toda a cadeia de acabamento.
Para a ITV portuguesa, concentrada em segmentos de maior valor acrescentado onde o acabamento é determinante (têxtil-lar premium, vestuário técnico, malhas tintas), a equação energética não é periférica: é estrutural. Segundo dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), a intensidade energética do subsector de preparação e acabamento de têxteis está entre as mais elevadas da indústria transformadora nacional, com consumos específicos que podem atingir 2-3 MWh/tonelada de tecido processado, consoante o tipo de acabamento.
Monitorização em tempo real: 15-20% de poupança imediata
A estratégia da Adalberto assenta em três pilares: medição rigorosa, inovação de processo e autoprodução. No primeiro, a empresa investiu em sistemas de monitorização em tempo real do consumo de gás natural, permitindo acompanhar o desempenho energético de cada encomenda desde o início da produção.
«Se utilizarmos a energia de forma eficiente, conseguimos poupar significativamente», sublinhou Mário Jorge Machado no webinar. A empresa definiu parâmetros de consumo por tipo de material e processo, visíveis para os operadores através de indicadores visuais simples — verde para consumo ideal, amarelo para aceitável, vermelho para excessivo.
«Os operadores conseguem ver se estão a operar dentro de parâmetros ideais, podendo ajustar imediatamente o processo. Com esta solução, alcançámos poupanças entre 15% e 20% no consumo de gás natural», revelou. A monitorização evidenciou ainda diferenças entre turnos, apontando para o impacto do factor humano: «Os operadores tendem a ajustar parâmetros como temperatura ou velocidade, o que pode aumentar o consumo energético. A medição e o controlo permitem corrigir essas variações».
Esta abordagem — tecnicamente designada por energy performance monitoring — começa a ser adoptada noutras tinturarias portuguesas, nomeadamente em Guimarães e Famalicão, onde o tingimento de malhas circulares representa volume significativo da actividade. A lógica é idêntica à dos sistemas SCADA industriais, mas aplicada especificamente à gestão energética por lote produzido.
Inovação química e inteligência artificial
O segundo pilar passa pela redução estrutural da intensidade energética dos processos. «Desenvolvemos e estamos a utilizar novos químicos que permitem lavar a temperaturas mais baixas», indicou o CEO da Adalberto. A empresa está também a recorrer à inteligência artificial para analisar grandes volumes de dados históricos de produção e «identificar onde estão as oportunidades de melhoria», considerando tratar-se de «uma nova ferramenta e um novo paradigma — estamos a obter resultados muito interessantes».
A aplicação de IA em tinturaria não é inédita a nível internacional (a DyStar, por exemplo, comercializa sistemas de optimização algorítmica), mas a sua adopção em empresas portuguesas de média dimensão representa um salto tecnológico relevante. A questão central é se esta modernização — que exige investimento em sensores, conectividade e competências analíticas — pode ser financiada e generalizada ao tecido industrial nacional, onde muitas unidades de acabamento operam ainda com sistemas de controlo manuais ou semi-automatizados.
Autoprodução: o diferencial entre 25€ e 150€/MWh
O terceiro pilar é a produção própria de energia. A Adalberto instalou capacidade fotovoltaica para autoconsumo, reduzindo a dependência da rede eléctrica. «Quando compramos electricidade à rede, o custo ronda os 150 euros por MWh; quando produzimos, é cerca de 25 euros — quase cinco vezes menos», destacou Mário Jorge Machado.
O desafio é o desfasamento entre geração solar (diurna) e operação contínua (24h). «Estamos a estudar o investimento em baterias para aumentar a nossa autonomia», referiu. A viabilidade económica do armazenamento electroquímico em escala industrial depende da evolução dos preços das baterias de lítio (ainda em descida) e dos mecanismos de apoio ao investimento — o PRR e o próximo Portugal 2030 incluem linhas para armazenamento, mas o acesso é limitado.
Na componente térmica, a Adalberto investiu numa caldeira de biomassa para produção de vapor, reduzindo a dependência do gás natural. «Não é uma solução perfeita, mas permite diversificar as fontes de energia», concedeu o presidente executivo. A biomassa florestal residual — abundante em Portugal, particularmente no interior norte — apresenta custos inferiores ao gás natural em base energética, mas exige infra-estrutura de armazenamento e manuseamento, além de maior atenção ambiental (emissões de partículas, cinzas).
Contexto europeu: Euratex aponta energia como desafio crítico
A preocupação portuguesa é partilhada a nível europeu. Dirk Vantyghem, director-geral da Euratex, apontou no mesmo webinar três grandes desafios para a competitividade da ITV europeia, sendo os custos de produção — «energia, trabalho e cumprimento regulatório» — um dos mais críticos.
Giulia Del Brenna, da Direcção-Geral do Mercado Interno, Indústria, Empreendedorismo e PME da Comissão Europeia, reforçou que «a resiliência deixou de ser um conceito abstracto e tornou-se uma necessidade imediata», enquadrando o sector num contexto de «policrises»: pandemias, tensões geopolíticas, disrupções logísticas e volatilidade energética.
Para a responsável europeia, construir cadeias de valor resilientes implica «antecipar riscos, diversificar dependências e investir em inovação e digitalização». Mas a questão colocada por Mário Jorge Machado mantém-se: sem electricidade competitiva, a transição digital e sustentável da ITV europeia — incluindo a portuguesa — pode tornar-se inviável economicamente.
Que margem tem Portugal?
A ITV portuguesa exporta cerca de 95% da produção, competindo directamente com países onde a electricidade industrial custa 40-60€/MWh (Turquia, países do Magrebe) ou onde o custo laboral compensa a factura energética (Ásia). A transição para renováveis próprias pode reduzir esta vulnerabilidade — mas exige capital, espaço físico (para painéis ou biomassa) e tempo de retorno que nem todas as empresas conseguem suportar.
A questão estratégica é se Portugal — com recursos solares e de biomassa superiores à média europeia — pode transformar a transição energética em vantagem competitiva. Ou se, pelo contrário, o custo de transição (investimento em geração própria, armazenamento, reconversão de caldeiras) se tornará uma nova barreira selectiva, acelerando a concentração do sector em grandes grupos com capacidade financeira.
A resposta passa também por Bruxelas. A Comissão Europeia está sob pressão crescente para criar mecanismos de compensação tarifária para indústrias intensivas em energia (à semelhança do que existe na Alemanha ou França), sob pena de ver acelerar a desindustrialização. Para a ITV portuguesa, a factura energética não é um tema técnico — é existencial.
Fonte: Portugal Têxtil, «Energia em foco na estratégia da Adalberto», 28 de Abril de 2026.
Fonte original: Energia em foco na estratégia da Adalberto · Portugal Têxtil
Análise editorial e contextualização para o mercado têxtil português produzida pelo Textile Essentials.