Água com gás no banho de tingimento: a proposta da SwitchDye
A start-up britânica SwitchDye, spin-off da Universidade de Leeds, desenvolveu um processo de tingimento de poliéster que substitui grande parte dos químicos auxiliares convencionais por uma pequena quantidade de água gaseificada — água carbonatada — injectada no banho de tingimento. Segundo a empresa, citada no Portugal Têxtil, o CO₂ dissolvido desencadeia “um comportamento de comutação único dos corantes nas fibras de poliéster”, facilitando tanto a fixação como a remoção posterior do corante.
Os números apresentados são relevantes para qualquer tinturaria portuguesa que processe poliéster, poliamida ou elastano: eliminação de até 90% dos químicos auxiliares, redução de 40% no consumo de água, 45% de diminuição no tempo de ciclo e poupanças energéticas na ordem dos 49%. Se confirmados à escala industrial — validação que está agora em curso com financiamento de várias entidades, incluindo a The Clothworkers’ Foundation e o Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSRC) do Reino Unido —, estamos perante alterações estruturais no processo de tingimento de sintéticos, não apenas ajustes incrementais.
Compatibilidade com equipamento existente: factor crítico para Portugal
Um dos aspectos tecnicamente mais interessantes da proposta da SwitchDye é a compatibilidade declarada com equipamentos de tingimento já instalados. Para uma tinturaria portuguesa que opera jiggers, jets ou overflows, o investimento necessário para adaptar uma linha de tingimento de poliéster a um novo processo é sempre uma barreira. Nathaniel Crompton, director executivo da SwitchDye, não especifica no comunicado que modificações concretas seriam necessárias, mas a empresa garante que o processo “funciona com os equipamentos já existentes nas fábricas”.
Na prática, isto significaria a adição de um sistema de injecção de CO₂ ao circuito de tingimento — tecnologia que, por analogia com processos de tingimento supercrítico já existentes (embora esses exijam pressões muito superiores e autoclaves dedicadas), não será trivial mas também não exigirá a substituição completa de linhas. A questão central para um gestor industrial português será: qual o custo de adaptação por kg de capacidade instalada, e em quanto tempo se amortiza através da redução de químicos, água e energia?
A SwitchDye está neste momento a conduzir projectos-piloto com tinturarias seleccionadas para “validar o desempenho à escala industrial e quantificar as reduções”. Até que esses dados estejam disponíveis, qualquer análise de viabilidade económica será especulativa. Mas o facto de a empresa de químicos têxteis John Hogg Technical Solutions ter entrado como parceiro industrial, disponibilizando conhecimento em produção e acesso a clientes, sugere que existe fundamento técnico para além do comunicado de imprensa.
Químicos auxiliares e conformidade REACH: pressão crescente
O director executivo da SwitchDye aponta um aspecto frequentemente ignorado: “são utilizados químicos ainda mais tóxicos para transformar águas residuais de cores vivas em líquido transparente. Quando libertados em água doce, são um assassino secreto que prejudica pessoas, animais e o ambiente.” Refere-se aos coagulantes, floculantes e agentes redutores empregues no tratamento de efluentes de tinturaria — muitos deles já sob escrutínio do regulamento REACH e de futuras restrições europeias.
Para uma tinturaria portuguesa, a eliminação de 90% dos químicos auxiliares no banho de tingimento teria impacto directo nos custos de conformidade regulatória. Menos químicos no processo significa menos substâncias a gerir em termos de fichas de dados de segurança, menos riscos ocupacionais, menor carga na estação de tratamento de águas residuais (ETAR) e, potencialmente, menores custos de eliminação de lamas de tratamento. Com a directiva-quadro europeia sobre produtos sustentáveis (ESPR) a avançar e a pressão sobre substâncias PFAS e outros compostos persistentes a aumentar, qualquer tecnologia que reduza a dependência de auxiliares de tingimento merece análise técnica séria.
Há também uma questão de certificação: clientes que exigem OEKO-TEX, GOTS ou ZDHC (Zero Discharge of Hazardous Chemicals) impõem já hoje listas restritas de químicos permitidos. Um processo que opera com corantes dispersos standard mas elimina grande parte dos auxiliares (dispersantes, igualadores, estabilizadores de pH, agentes redutores) poderia simplificar auditorias e reduzir não-conformidades.
Reversibilidade do processo: implicação para reciclagem têxtil
Harrison Oates, director de tecnologia da SwitchDye, sublinha que “o SwitchDye pode ser removido mais facilmente da fibra, tornando o vestuário muito mais reciclável”. Este é um ponto técnico relevante: a reciclagem química de poliéster (despolimerização) exige fibras limpas, e a remoção de corantes é um dos obstáculos. Processos convencionais de tingimento com corantes dispersos criam ligações estáveis entre corante e fibra, que resistem à lavagem mas também dificultam a reciclagem.
Se o processo com CO₂ permitir uma remoção mais fácil do corante no fim de vida — eventualmente através de um ciclo inverso com água gaseificada, embora o comunicado não detalhe o procedimento —, isso facilitaria a obtenção de PET reciclado de maior pureza. Para Portugal, onde a reciclagem têxtil ainda é incipiente mas começam a surgir projectos-piloto (veja-se a Resiatex, em Barcelos, que recicla mecanicamente resíduos têxteis pré-consumo), qualquer tecnologia que melhore a reciclabilidade do poliéster tingido tem interesse estratégico.
Próximos passos e aplicabilidade à indústria portuguesa
A SwitchDye está em fase de primeira ronda de investimento e condução de pilotos industriais. Nos próximos 12-18 meses, será possível avaliar se os números de laboratório se confirmam em ambiente industrial real, com variações de qualidade de água, diferentes construções de malha e tecido, e ciclos de produção comerciais.
Para uma tinturaria portuguesa que processe volumes significativos de poliéster — seja para marcas de desportivo, seja para têxtil-lar ou aplicações técnicas —, a tecnologia merece acompanhamento. As questões a colocar são:
1. Custo de adaptação por máquina: quanto investimento por jigger ou jet, e em quanto tempo se amortiza? 2. Qualidade de cor: fastness (solidez) comparável ao tingimento convencional, especialmente a lavagens sucessivas e a luz? 3. Gama de corantes: aplicável apenas a corantes dispersos standard, ou também a corantes de alta energia para tons escuros? 4. Fornecimento e custo do CO₂: infraestrutura disponível em Portugal, custo por kg de fibra tingida. 5. Conformidade regulatória: certificação REACH para o processo, homologações necessárias para exportação.
A John Hogg Technical Solutions, parceira da SwitchDye, tem distribuidores e clientes na Península Ibérica. Será através desses canais que a tecnologia chegará ao mercado português, se a validação industrial for bem-sucedida. Até lá, directores industriais e técnicos de tinturaria devem seguir a evolução dos pilotos e, idealmente, solicitar visitas técnicas ou ensaios laboratoriais assim que a SwitchDye abrir essa possibilidade.
Conclusão: inovação com fundamento técnico, validação pendente
O tingimento de poliéster com injecção de água gaseificada não é uma ideia de marketing: é uma tecnologia nascida de investigação universitária interdisciplinar, com financiamento público e industrial confirmado e com parceiros técnicos credíveis. Os números apresentados — 90% menos químicos, 40% menos água, 45% menos tempo, 49% menos energia — são suficientemente significativos para justificar atenção.
Mas até que dados de validação industrial estejam disponíveis, qualquer decisão de investimento seria prematura. O que gestores de tinturarias portuguesas podem fazer agora é:
– Acompanhar publicações técnicas da SwitchDye e relatórios dos pilotos industriais – Contactar a John Hogg Technical Solutions para manifestar interesse em ensaios futuros – Avaliar internamente a dependência actual de químicos auxiliares e custos associados, para ter termo de comparação quando a tecnologia estiver comercialmente disponível – Considerar a tecnologia no contexto de estratégias de conformidade REACH e de preparação para a ESPR
A indústria têxtil portuguesa, especializada em acabamentos técnicos de qualidade, tem capacidade de adopção rápida de inovações validadas. Se a SwitchDye cumprir o que promete, a adaptação pode acontecer mais depressa do que em mercados com estruturas industriais mais rígidas. A questão não é se a tecnologia é interessante — é —, mas quando estará pronta para implementação comercial a uma escala que justifique o investimento.
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Fonte: Portugal Têxtil — “Start-up britânica usa água com gás para tingir poliéster”, 23 de Abril de 2025.
Artigo desenvolvido com base em informação originalmente publicada em Portugal Têxtil: «Start-up britânica usa água com gás para tingir poliéster».