Tecnologia de reciclagem química sem pré-tratamento chega ao mercado europeu
A reciclagem de têxteis de poliéster pós-consumo enfrenta um constrangimento técnico conhecido: o controlo da viscosidade intrínseca (IV) e a remoção de contaminantes sem degradar a cadeia polimérica. A BB Engineering, fabricante alemão de equipamentos de extrusão, apresentará na PRSE 2026 (Düsseldorf, 1-3 abril) um sistema de reciclagem química que processa resíduos têxteis de poliéster diretamente em fusão, sem recurso a pré-lavagem com solventes ou despolimerização.
Segundo informação divulgada pela empresa, a tecnologia combina o sistema de filtração VacuFil com a linha de extrusão COBRA, já instalada numa unidade industrial na Turquia onde processa resíduos de fibras long-staple de poliéster (LSP). A configuração é relevante para produtores portugueses de fibra técnica e recicladores que enfrentam pressão regulatória crescente da Estratégia EU para Têxteis Sustentáveis e Circulares.
Como funciona o sistema VacuFil-COBRA
O processo assenta em três etapas integradas:
Filtração em fusão (VacuFil): O poliéster pós-consumo é fundido e passa por filtros de malha metálica (não são especificados os microns, mas a empresa refere capacidade de remoção de “impurezas sólidas e contaminantes”) sem adição de químicos. O sistema opera sob vácuo, permitindo desgaseificação contínua — crítico para remover oligómeros e humidade residual que comprometeriam a qualidade da fibra.
Extrusão contínua (COBRA): A massa fundida filtrada alimenta directamente a linha de extrusão, onde é ajustada a viscosidade intrínseca através de controlo de temperatura e tempo de residência. A BB Engineering não especifica os valores IV atingidos, mas menciona que o sistema permite “restabelecer as propriedades mecânicas” do PET reciclado.
Granulação e spinning: O polímero reciclado pode ser granulado para venda como rPET ou alimentar directamente linhas de fiação, eliminando uma etapa de reprocessamento.
A instalação turca processa resíduos LSP — fibras longas habitualmente provenientes de cortinados, estofos e têxteis técnicos — tipicamente mais limpos que fast-fashion pós-consumo, mas ainda assim sujeitos a contaminação por poliésteres modificados (PET cationic-dyeable, por exemplo) e acabamentos.
Viabilidade para a indústria portuguesa
Portugal tem capacidade instalada de extrusão de poliéster (Fisipe, unidades de transformação em Famalicão e Barcelos), mas a reciclagem química de têxteis pós-consumo permanece marginal. A tecnologia VacuFil-COBRA levanta três questões operacionais:
1. Requisitos de investimento: Sistemas de extrusão com controlo IV e filtração em fusão representam investimento estimado (não confirmado pela BB Engineering) entre 2-5 milhões EUR para capacidade industrial. A viabilidade depende do spread entre o custo do PET virgem (actualmente ~1,20 EUR/kg) e o rPET certificado (1,50-1,80 EUR/kg), que está a comprimir.
2. Qualidade do feedstock: O sistema pressupõe resíduos têxteis relativamente homogéneos. Portugal recolhe ~100.000 toneladas/ano de têxteis pós-consumo (dados CITEVE 2023), mas apenas 15-20% é poliéster puro — a maioria são misturas algodão-poliéster que exigem separação prévia, não resolvida por esta tecnologia.
3. Certificação e rastreabilidade: A regulação EU exigirá, a partir de 2030, conteúdo reciclado verificável em têxteis. Sistemas de reciclagem química como o VacuFil permitem certificação GRS (Global Recycled Standard) ou SCS, mas apenas se a cadeia de custódia for auditável desde a recolha. Isto implica infraestrutura de triagem que Portugal ainda não tem em escala.
Alternativas mecânicas e químicas no mercado
A tecnologia da BB Engineering compete com:
– Reciclagem mecânica convencional: Mais barata (0,40-0,60 EUR/kg processado), mas produz rPET com IV degradado (0,55-0,65 dL/g vs. 0,80-0,85 do virgem), limitando aplicações a non-wovens e enchimentos. Empresas portuguesas como Valérius (Famalicão) trabalham neste segmento.
– Despolimerização química (glicólise/metanólise): Processos como Ioniqa, Carbios ou Eastman APR produzem monómeros que permitem PET reciclado com qualidade virgem, mas exigem unidades de 50.000+ ton/ano para serem viáveis. Demasiado grande para a escala portuguesa.
– Dissolução com solventes: Tecnologias como Worn Again ou Carbios PLA dissolvem selectivamente o poliéster de misturas, mas ainda em fase piloto e com custos energéticos elevados.
O sistema VacuFil posiciona-se numa escala intermédia: menor investimento que despolimerização, melhor qualidade que reciclagem mecânica pura, mas dependente de feedstock relativamente limpo.
Interesse potencial de produtores nacionais
Dois segmentos da ITV portuguesa poderão ter interesse nesta tecnologia:
Produtores de fibra técnica para automóvel e construção: Empresas que fornecem a Volkswagen Autoeuropa ou fabricantes de geotêxteis enfrentam especificações crescentes de conteúdo reciclado (directiva End-of-Life Vehicles exige 25% reciclado em plásticos até 2030). rPET com IV controlado permite cumprir requisitos mecânicos sem comprometer performance.
Tecelagens de poliéster para fardamento profissional: O mercado B2B de workwear está a migrar para certificações ambientais (hospitais, forças de segurança, utilities) e paga premium por poliéster reciclado certificado. Uma linha VacuFil-COBRA com 5.000-8.000 ton/ano poderia abastecer este nicho.
A BB Engineering não divulgou custos operacionais (energia, manutenção de filtros, perdas de processo), fundamentais para avaliar o business case português. A empresa estará na PRSE 2026 (stand ainda não especificado) para demonstrações técnicas.
Regulação europeia acelera procura de soluções de escala média
A Estratégia EU para Têxteis Sustentáveis, em implementação faseada até 2030, criará obrigações de incorporação de reciclado em novos produtos têxteis (percentagens ainda em negociação, mas entre 20-40% para certas categorias). Simultaneamente, o regime de Responsabilidade Alargada do Produtor (EPR) para têxteis entrará em vigor em Portugal em 2025, criando fluxos financeiros para infraestrutura de recolha e reciclagem.
Tecnologias como o sistema VacuFil-COBRA podem beneficiar deste contexto regulatório, mas apenas se:
1. O custo do rPET produzido competir com importações asiáticas (China exporta rPET a ~0,90 EUR/kg CIF Europa) 2. Houver garantia de fornecimento de feedstock classificado (exige investimento público em triagem) 3. Os compradores finais (fast-fashion, workwear, têxtil-lar) aceitarem pagar o premium pelo certificado de origem EU
Sem estas três condições, o investimento em reciclagem química de poliéster em Portugal permanecerá especulativo.
Conclusão aplicável
A tecnologia de reciclagem química de PET têxtil apresentada pela BB Engineering demonstra maturidade técnica suficiente para operação industrial contínua, eliminando uma barreira crítica (pré-tratamento químico complexo) que limitava a viabilidade de sistemas anteriores. Para a indústria têxtil portuguesa, representa uma opção de escala intermédia entre reciclagem mecânica de baixo valor e despolimerização química que exige mega-plantas.
A viabilidade económica dependerá do custo real do sistema (investimento e operação), da disponibilidade de resíduos têxteis de poliéster triados, e do prémio que o mercado pagará por rPET certificado de origem europeia. Produtores nacionais de fibra técnica com clientes sujeitos a regulação ambiental rigorosa (automóvel, construção, saúde) são os candidatos naturais para avaliar esta tecnologia.
A apresentação na PRSE 2026 permitirá acesso a especificações técnicas completas (consumos energéticos, taxa de contaminantes removidos, valores IV atingidos) essenciais para qualquer análise de business case sério.
Fonte: Fibre2Fashion – BB Engineering to showcase PET textile recycling tech at PRSE 2026
Artigo desenvolvido com base em informação originalmente publicada em Fibre2Fashion: «BB Engineering to showcase PET textile recycling tech at PRSE 2026».