Dual-coating Tacnera: adesivo de silicone para pensos avançados
Freudenberg Performance Materials lança tecnologia de duplo revestimento que combina espuma de poliuretano com camada de adesivo de silicone, permitindo adesão sem trauma cutâneo em pensos para feridas complexas.
Contexto: o equilíbrio entre adesão e trauma
O mercado de pensos avançados para feridas (advanced wound dressings) enfrenta um desafio técnico conhecido: garantir adesão suficiente para manter o dispositivo médico no local da ferida, sem causar trauma cutâneo adicional durante a remoção. Para feridas crónicas — úlceras de pressão, diabéticas ou venosas — este equilíbrio é crítico, pois a pele perilesional está frequentemente fragilizada. A solução Tacnera, recentemente introduzida pela Freudenberg Performance Materials, propõe resolver este problema através de um processo de dual-coating (revestimento duplo) aplicado a não-tecidos técnicos.
Para a indústria têxtil portuguesa — onde o segmento de têxteis médicos e dispositivos descartáveis representa um dos vectores de crescimento mais dinâmicos, com produtores consolidados na região Norte — compreender esta tecnologia é relevante tanto do ponto de vista da transferência tecnológica como da identificação de nichos de mercado.
A tecnologia Tacnera: processo e arquitectura
Segundo a Freudenberg, o Tacnera é um não-tecido de espuma de poliuretano que recebe duas camadas funcionais distintas através de um processo proprietário de revestimento sequencial. A primeira camada consiste num adesivo de silicone, aplicado directamente sobre a superfície da espuma; a segunda camada é uma película de polietileno, que protege o adesivo e permite o manuseamento e aplicação clínica do penso sem contaminação.
A inovação reside na capacidade de depositar camadas ultrafinas de silicone — material com elevada compatibilidade cutânea e propriedades de low-tack adhesion — sobre um substrato de espuma, mantendo a permeabilidade ao vapor de água e a conformabilidade do conjunto. O silicone médico é reconhecido pela sua baixa adesão residual: ao contrário de adesivos acrílicos ou de borracha natural, não deixa resíduos sobre a pele e permite remoções repetidas sem desprendimento do estrato córneo.
Comparação com tecnologias convencionais
Os adesivos tradicionais para pensos baseiam-se em três famílias químicas principais:
1. Acrílicos hidrofílicos — elevada adesão inicial, mas risco de trauma cutâneo e resíduos sobre a pele. Usados em pensos económicos. 2. Borracha natural ou sintética — boa adesão, mas podem causar irritação em peles sensíveis; não recomendados para feridas crónicas. 3. Silicones médicos — adesão controlada (low-tack), remoção atraumática, ausência de resíduos. Custo superior, mas adoptados em pensos avançados.
O processo de dual-coating da Freudenberg distingue-se por permitir a aplicação de silicone em camadas ultrafinas (reduzindo custo material) sobre espuma de PU, criando uma estrutura tridimensional que mantém a respirabilidade do não-tecido. Tecnologias convencionais aplicam o adesivo sobre filmes planos de poliuretano ou poliéster, resultando em menor conformabilidade e gestão da humidade inferior.
Propriedades verificadas e aplicações clínicas
A Freudenberg posiciona o Tacnera para pensos primários e secundários em feridas complexas, incluindo:
– Úlceras de pressão (categoria II-IV) – Úlceras diabéticas – Queimaduras de segundo grau – Feridas pós-operatórias com exsudado moderado
As propriedades reivindicadas incluem:
– Permeabilidade ao vapor de água superior a 2.000 g/m²/24h (norma EN 13726), permitindo gestão do microclima da ferida – Adesão controlada entre 0,5-1,5 N/25mm (teste de peel strength), suficiente para fixação mas abaixo do limiar de trauma cutâneo – Conformabilidade adaptada a zonas anatómicas de difícil aplicação (articulações, calcâneos, sacro) – Baixa alergenicidade, compatível com Regulamento MDR 2017/745 (dispositivos médicos, classe IIa)
Perspectiva portuguesa: oportunidades em têxteis médicos
O sector de têxteis médicos em Portugal registou crescimento de 18% em exportações entre 2020-2022, segundo dados da ATP (Associação Têxtil e Vestuário de Portugal), com destaque para não-tecidos funcionais e dispositivos descartáveis. Empresas como a Têxtil Manuel Gonçalves (Guimarães), Lameirinho (Guimarães) e Tintex Textiles (Penafiel) consolidaram capacidades em substratos técnicos para aplicações médicas, mas a integração de processos de coating avançado — particularmente com silicones médicos — permanece limitada.
A transferência da tecnologia de dual-coating para o contexto português apresenta três vectores de interesse:
1. Acabamento funcional de não-tecidos existentes
Produtores nacionais de não-tecidos de spunbond, meltblown ou espumas técnicas poderiam integrar linhas de coating por gravura ou cortina (curtain coating) para aplicação de adesivos de silicone em fase aquosa ou solvente. O investimento estimado para uma linha piloto situa-se entre €800.000-€1,2M, com capacidade de 1.000-2.000 m²/dia.
2. Desenvolvimento de pensos avançados com certificação europeia
O mercado europeu de pensos avançados vale €4,2 mil milhões (2023), com crescimento anual de 6,8% até 2028. Fabricantes portugueses com certificação ISO 13485 e experiência em dispositivos médicos classe I poderiam avançar para classe IIa, capturando margens superiores (30-45% vs. 12-18% em têxteis convencionais).
3. Nichos de elevado valor: pediatria e geriatria
Pensos atraumáticos com silicone são particularmente valorizados em populações vulneráveis. O envelhecimento demográfico europeu (28% da população com 65+ anos em 2030) e o crescimento de cuidados domiciliários criam procura específica para dispositivos de fácil aplicação e remoção.
Barreiras técnicas e regulatórias
A adopção de tecnologias de dual-coating exige competências que transcendem a engenharia têxtil tradicional:
– Formulação química: silicones médicos exigem aditivos específicos (catalisadores de platina, inibidores de cura) e controlo rigoroso de impurezas (metais pesados <5 ppm) - Controlo de processo: espessura de camada (±5 μm), uniformidade de revestimento (CV <10%), adesão interfacial entre silicone e PU - Validação biológica: testes de citotoxicidade (ISO 10993-5), sensibilização cutânea (ISO 10993-10), irritação (ISO 10993-23) – Conformidade regulatória: dossier técnico segundo MDR 2017/745, vigilância pós-comercialização, rastreabilidade (UDI)
Estes requisitos sugerem que a transferência tecnológica será mais viável através de parcerias com institutos de investigação (CITEVE, Universidade do Minho) ou joint ventures com fornecedores europeus de silicones médicos (Wacker, Elkem Silicones).
Conclusão aplicável: da inovação à industrialização
O Tacnera da Freudenberg demonstra que a diferenciação em têxteis médicos reside cada vez mais no acabamento funcional e na arquitectura multicamada, não apenas no substrato base. Para fabricantes portugueses, isto implica:
1. Avaliar capacidades internas de coating e laminação — muitas linhas de acabamento têxtil podem ser adaptadas para aplicações médicas com investimento incremental 2. Identificar nichos regulatórios onde a certificação europeia é barreira de entrada (vs. concorrência asiática) 3. Estabelecer parcerias com fornecedores de químicos especializados e laboratórios de ensaio acreditados
A tecnologia está disponível. A questão estratégica é determinar que posição ocupar na cadeia de valor: fornecedor de substratos, integrador de processos de coating, ou desenvolvedor de dispositivos médicos de marca própria.
Fonte: Innovation in Textiles
Artigo desenvolvido com base em informação originalmente publicada em Innovation in Textiles: «Dual-coating Tacnera from Freudenberg».